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Quando acabei de mascar o lanche e de tomar o suco, fiquei um pouquinho sentado, viajando, pensando na briga com a Cacá, pois apesar de ela ter agido como criança, eu...bem, não que eu gostasse dela, mas digamos que eu sentia uma forte atração por ela (Ela era bem gostosa).
. Resolvi picar a mula, pois já eram cinco e dez da manhã, e só dava eu na lanchonete do Anderson. Os cowboys e o casal já tinham ido embora e eu viajei tanto que nem percebi, então para não ficar chato (Apesar de que eu estava com uma moleza do cão e vontade nenhuma de ir embora) me levantei e fui acertar
as contas com o Dersão.
. Lá se foram mais R$ 9,00, mas...beleza, né? Comida não é pecado, e mesmo que fosse, não podemos negar que a vida seria muito entediante se não pecássemos às vezes.
NÃO DÁ NADA!
. Realmente já era mesmo hora de dormir, pois não tinha mais nada naquela cidade de merda, só as ruas vazias e os nóias chapados de farinha e pedra, mas esses evitemos, pois não podemos confiar muito...um dia eles virão te pedir grana emprestada. Quer um conselho? Nunca empreste, ou isso virará uma rotina.
. Naquela hora eu não sabia se rolava voltar pelo centro ou cortar caminho por uma viela escura, mas em poucos segundos cheguei na conclusão que iria poupar dez minutos, e aliás, achei que pelo centro eu teria a grande probabilidade de trombar um nóia que iria me abordar para pedir grana, ou um gambé filho da puta (Maior probabilidade ainda) para me enquadrar e quem sabe me folgar um pouco. É, o esquema foi mesmo a vielinha (E que vacilo, saca só!).
. Comecei a subida até a viela, peguei uma manga verde no pé e comecei a devora-la, a fruta nunca me pareceu tão doce (Nas condições em que eu estava...).
. A viela estava escura, as sombras das árvores eram suspeitas, as casas estavam abandonadas...eu tinha dezenove anos e já tinha passado pela fase de medo de escuro, mas mesmo assim eu senti alguns calafrios...mas quem não sentiria?
. Quando percebi, a manga já tinha se acabado, e eu estava sem a manga, sem a Cacá...só tinha mesmo sobrado meu dedo para eu chupar.
.Quando eu estava passando por algumas casas demolidas, um gato filho da puta saiu das sombras, pulou na minha frente e quase me matou do coração. Naquele instante tinha voltado para minha cabeça uma péssima lembrança: Meu avô me contava que no porão daquelas casas rolavam altos rituais malignos (Na verdade ele só contava para me botar medo, e eu nunca tinha acreditado...nesse dia foi a primeira vez).
. A lembrança naquela hora não foi tão bem vinda, pra falar a verdade eu fiquei bastante encanado e saí caminhando um pouco mais rápido sem olhar para os lados. Fui no que fui e já havia me esquecido de tudo, a seqüela tinha voltado a minha cabeça e eu já me encontrava chapado novamente, então quando estava quase chegando no final da viela avistei um pequeno vulto...aliás, eram dois. Fiquei meio cabreiro, mas depositei fé e resolvi chegar mais perto.
. Na hora senti um enorme alívio, pois o vulto era um garotinho de seus quatro, cinco anos de idade e seu dálmata imundo. O garotinho segurava um copo de água (Vazio) descartável nas mãos (Neste tinha um rosto desenhado).
. Ele estava completamente sujo e tinha um ar muito estranho, ele usava um rayban (BL) estilo o daqueles usados por guardas rodoviários, com uma lente coberta de pingos de chuva e a outra quebrada. Ele tinha cabelo liso, porém despenteado, e também estava vestindo uma camisa vermelha com um desenho muito mal feito do que era pra ser o Mickey, uma bermudinha espera–maré azul (Porém completamente desbotada) e também estava descalço e com os pés imundos.
. Ele ficou me fitando sem piscar os olhos sequer uma vez, e eu percebi um certo desconforto em sua pessoa, mas me aproximei para conversar, pois uma coisa muito, mas muito estranha mesmo era uma criança de quatro, cinco anos sozinha numa viela escura em plena madrugada.
-Oi? – Perguntei ao garoto, mas ele não respondeu nada, ele continuou ali estático me olhando, mas nunca largando aquele copinho descartável (Enquanto seu dálmata me cheirava), tentei novamente: -Oi, tudo bem? – E...nada, lá estava ele me fitando e aliás, ele estava começando a me dar arrepios, então resolvi (des)encanar e seguir o caminho de casa. –Boa noite, garoto! – Nada!
. Eu estava seguindo meu rumo, mas tinha chegado numa parte um tanto complicada para pessoas sobre o efeito de álcool e marijuana. Eu iria ter que descer um barranco, mas meio que de longe o calafrio já tinha voltado. Fitei uma rodinha de seis pessoas perto do barranco. De princípio passou pela minha cabeça que aquilo não era nada mais que um bando de adolescentes puxando fumo, mas quando me aproximei, dois deles, completamente pálidos, com as faces desprovidas de qualquer expressão e com olhos completamente negros se viraram para mim, apontaram o dedo e resmungaram qualquer coisa ininteligível para todo o resto, que logo se colocou em fila e pulou desesperadamente do barranco.
. A adrenalina pulsou da ponta direita de meu esfíncter até o pólo mais sombrio do meu cérebro. Senti-me na capa de um cd do Korn e fiquei branco, pois achei que tinha assistido bem de perto um suicídio em massa. Nesse dia meu cérebro estava um tanto mais devagar do que de costume, mas eu tinha certeza que tinha visto algumas pessoas se matarem. Eu tinha certeza, pois o que eu tinha usado naquela noite era só uma mescla de substâncias que não chegam a provocar alucinações, apenas sensibilizam reflexos.
.Bem, continuando...pelo barranco eu num ia descer nem fodendo pois não queria me deparar com vários cadáveres e uma pá de smurf lá embaixo. Voltei correndo até o ponto em que estava o garotinho, e lá estava ele, estático. Resolvi falar novamente com ele, convicto que iria fazer ele dizer algo nem que fosse debaixo de uma chuva de socos.
-Oi! – O mesmo de alguns minutos atrás: O garoto calado, me observando sem piscar. – Você é mudo? – Sem qualquer sinal de mudança em sua fisionomia, ele continuou parado exatamente no mesmo local, desde o início.- Ah, já sei, seus pais não querem que você fale com estranhos, né? – E nada...o olhar nervoso e penetrante do garoto estava me deixando um tanto desconfortável, principalmente depois de ter assistido ao vivo uma encenação perfeita de um suicídio em massa. Meus nervos estavam começando a pipocar, então já falei com a paciência um tanto alterada:
-Já que seus pais não querem que você fale com ninguém, acho que não deveriam deixar um pivete andar pela rua em plena madrugada. Qual é seu nome? – Nada, nadica de nada, eu já estava me cansando de olhar para a cara daquele filho da puta. Enfezei-me, virei de costas e saí andando, (Isso também pode ser chamado de medo) pois se olhasse mais um mísero segundo para a cara dele, eu tinha toda a certeza que iria ter pesadelos. Andei uns dez passos quando de repente ouvi uma voz:
-Uó Uó!
. Quando me virei, já perguntei:
-O que você disse? – Então ele me respondeu novamente sem mudar um milímetro de sua fisionomia:
-Uó Uó!
-O que é Uó Uó? – Perguntei aproximando-me novamente do garoto.
-Você perguntou meu nome e eu te respondi. Meu nome é Uó Uó!
-Nome esquisito, né?
-Meus pais que escolheram.
-Ah, é? E onde é que estão seus pais?
-Eles são meus pais. – Quando o garotinho terminou a frase apontou para o copo e para o dálmata, então dei uma risada meio nervosa, pois aquilo não estava ficando nada legal!
-Então você quer me dizer que esse copo e esse cachorro sujo são seus pais? – Fiz essa pergunta em tom de ironia, é lógico.
-Só não sei onde você ta vendo um copo e um cachorro sujo, eu só consigo ver você e meus pais.
. Minha cabeça estava girando, tudo o que eu devia ter feito era ter sumido dali. Eu sabia que estava ficando louco, mas não a ponto de confundir os pais de alguém com um copo plástico e um cachorro.
-Ah ta, entendi! E onde é que vocês moram?
-Ali! – O garotinho apontou para uma casinha minúscula e pobre que estava situada no meio de um matagal que se localizava atrás da gente.
-Ah, é? Então vamos até sua casa.
. Naquela hora não sei o que deu em mim, acho que foi preocupação por causa de
ter ouvido uma sirene. Acho que a última coisa que eu faria em estado de sã consciência seria entrar numa casinha sinistra com um moleque sinistro de quatro, cinco anos de idade, mas naquela hora me subiu uma coragem (Leia-se medo) e eu fiquei com vontade de levar o garoto para os verdadeiros pais (Que eu duvidava que fossem mesmo um copo e um cachorro, como qualquer ser humano normal também duvidaria).
-Você está se convidando? – Me perguntou o garotinho um pouco esperto para a idade.
-É!
-Vou perguntar aos meus pais se eles te deixam entrar. – O garotinho deu as costas para mim, sussurrou qualquer coisa com o copo e com o cachorro e se virou novamente para mim (Naquela hora eu já estava quase cagando nas calças de tanto medo da polícia, só não sei o por que):
-Mamãe e papai concordaram sobre você conhecer nosso humilde lar, vamos lá! – O arrepio subiu às costelas.
-Vamos.
. Subimos por um matagal que batia na altura do meu joelho, pois a casa ficava a mais ou menos uns vinte metros de distância da viela. Quando chegamos lá propus para o garoto o seguinte:
-Agora vamos apertar a campainha, né?
-Por que? Não tem ninguém em casa. Papai, mamãe e eu estamos aqui.
. Não posso negar que apesar de toda morbidez, o moleque não era nada tolo. Ele abriu a porta:
-Entre!
. A casa era minúscula, totalmente empoeirada e só tinha dois cômodos. Um era a cozinha–quarto–sala e o outro que fazia um barulho mais ou menos parecido com o motor de um fusca, imaginei que deveria ser o banheiro.
-Então, cadê seus pais? – Me sentei no sofá, mas perguntei em tom de preocupação, pois se os verdadeiros pais daquele moleque pegassem um estranho quase seis horas da manhã dentro da casa deles, aposto que não iriam gostar nem um pouco e além disso poderiam me taxar de pedófilo ou qualquer coisa similar. Tudo o que eu queria era sumir dali (Mas estava com medo da polícia), pois estava começando a ficar preocupado.
- Já te disse, eles são meus pais e eles estão começando a ficar chateados com você, pois é só olhar para a mamãe e ver que eu sou a cara dela, veja! – O garotinho colocou o copo descartável na frente de meus olhos, quando olhei aquele rosto torto feito com canetinha hidrocor não me contive e ri.
-É verdade, como não percebi isso antes? É a sua cara.
. Eu devia ter sumido dali. Um menino que fica sozinho de madrugada numa casa no meio do nada é realmente uma coisa estranha...muito estranha.
. Naquele exato momento, o molequinho colocou o ouvido na boca do copo “mãe” dele e depois me disse:
-Mamãe quer que você tome um café conosco.
-...Tudo bem! – Meio que com um pé atrás eu aceitei, pois achava que um menino daquela idade não teria os dons de envenenar um café, e aliás, (Apesar das estranhas circunstâncias) ele estava me oferecendo na maior humildade (Que bosta!). Com o passar do tempo, eu tive a estranha sensação de que ele realmente estava sendo controlado pelo copo e pelo cachorro, que me parecia um pai promíscuo dominado pela esposa (Mas mesmo assim fui trouxa o suficiente de não ter ido embora dali).
. Uó Uó me trouxe o café numa xícara, o que na hora se fez correr pela minha cabeça uma piadinha estúpida. Eu pensei em perguntar se a xícara era irmã da mãe dele, mas deixei quieto pois ele poderia não gostar da brincadeira e se magoar.
-Tome seu café!
-Ah, obrigado!
-Qual é seu nome? Você não me disse!
-Fábio. – Eu dei um golão no café, que estava gelado, porém delicioso, então matei o resto num gole só. – Sem querer parecer pidão, mas você poderia me dar outra xícara de café?
. O garoto olhou sorridente para sua “mãe” e disse:
-Olha mamãe, parece que alguém gostou de seu café.
. Num ato supremo de insanidade eu elogiei o café para o próprio copo plástico:
-Está muito gostoso, senhora!
. Naquele momento minha mente já tinha se acostumado e tinha entrado na brincadeira do garoto, pois eu fiz elogios sobre uma xícara de café diretamente para um copo plástico vazio que não pode ter feito o café, pois como todos sabemos, um copo descartável de 200 ml não tem mãos e não pensa, logo, não pode fazer café.
. O garoto me entregou outra xícara, a qual tomei em um gole só. Minha curiosidade sobre o barulho que vinha do banheiro (Onde eu pensei que fosse o banheiro) estava se aguçando, até o momento que não me contive e perguntei:
-O que é que está fazendo esse barulhão no banheiro?
-Não é o banheiro, é a sala da caldeira.
-Sala da caldeira?
-É onde papai prepara seus deliciosos assados.
-Então...aonde é que fica o banheiro?
-O banheiro fica na fossa lá fora, é que nem nas historinhas do Chico Bento.
. Eu devia ter sumido dali, já eram quase seis horas da manhã e naquela hora eu realmente tinha me dado conta de que aquela merda estava ficando realmente muito estranha, pois os efeitos do álcool e da maconha estavam indo embora.
-Bem, está ficando tarde. Obrigado pelo café, mas preciso ir.
. Levantei-me do sofá e comecei a caminhar em direção da porta. Uó Uó exclamou:
-Papai ficará chateado se você não experimentar um de seus assados e não conhecer sua fabulosa caldeira.
. Na hora pensei que se não tinha me acontecido nada ainda, nada iria acontecer, e meio que com pena concordei em ver a tal sala da caldeira antes de ir embora.
-Ver a caldeira? Vamos lá! Por que não?
-Vamos lá papai, ele aceitou seu convite! – O garoto exclamou todo contentinho para o “pai”.
. Naquele momento aconteceu uma coisa que realmente me deu calafrios, pois deu a impressão que o cachorro realmente tinha ouvido o garoto, pois ele se levantou e nos seguiu até a bendita sala da caldeira. Ao entrar na sala, um delicioso cheiro de carne infestava o local.
-Hum, que cheiro bom! Que carne é essa?
-Ah, isso é surpresa, experimente! - Fora da caldeira já havia um prato com pedaços picados de carne, então peguei um pedaço...estava muito bom, então já emendei mais dois nos dentes. – Abra a caldeira Fábio e se delicie com o que você quiser.
. A salinha era pequena e só tinha a caldeira e algumas espátulas (Provavelmente para tirar os assados de dentro da caldeira).
-Não se impressione se eu comer tudo! – Falei brincando.
-Fique a vontade, aliás, você é nosso convidado especial.
-Obrigado! – Fui chegando perto e o calor foi aumentando, mas o cheiro estava realmente muito bom. – Seu pai cozinha de madrugada?
-O dia todo, a vida dele se baseia em seus assados.
. Fui me aproximando e abri a tampa vertical da caldeira...naquele momento senti um baque como se tivesse tomado um soco de um gigante no meu saco escrotal. A ânsia me tomou por completo, posso dizer com certeza que até aquela hora esse tinha sido (Provavelmente) o maior susto de toda minha vida. Tudo o que havia dentro da caldeira eram pernas assadas, braços, pés, abdomens e até um pinto...virei-me para correr já completamente pálido e com o cu piscando:
-Mas que mer..
. Tak! Não deu tempo nem de acabar a frase. A única coisa que consegui assimilar foi Uó Uó batendo na minha cara com uma daquelas espátulas de ferro, me trancando dentro da caldeira fervente e finalizando com uma piadinha:
-Até parece que sua mãe nunca te disse para não falar com estranhos! - É...vivendo (Morrendo?) e aprendendo, né? - Chegou sua hora...vamos, papai!
. Inconscientemente ouvi os dois saindo da sala, enquanto eu me encontrava meio
que (Morto?) desmaiado. Acho que acordei mais ou menos uma hora depois com uma sensação muito estranha, pois o fogo não me queimava. Quente estava, mas eu estava imune ao fogo. Do lado oposto ao que eu entrei na caldeira havia uma portinhola, eu fui caminhando agachado até ela e abri...
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